DE KUNDY PAIHAMA A JOÃO LOURENÇO

Numa entrevista que dei à secção de língua portuguesa da Rádio Deutsche Welle e que foi transmitida no dia 30 de Setembro de… 2008 , dia em que os novos deputados angolanos tomavam posse, entre os quais estava, pelo MPLA, o mais velho parlamentar, com 94 anos, o rei Ekuikui IV, afirmei que os militares estavam subordinados ao poder político. Com esta afirmação estraguei tudo. Pudera!

Por Orlando Castro

E estraguei tudo porque, na verdade, é o contrário. Na época bastava ver que, por exemplo, o general Hélder Vieira Dias, Kopelipa, era, no mínimo, o braço direito de Eduardo dos Santos na escolha do novo Governo. Ou ainda, que Paulo Kassoma, o novo-primeiro-ministro, era também general.

Os militares em África em geral e em Angola em particular são quem, de facto, tem o poder. Pouco importa se é estritamente militar ou político. A subordinação do poder militar ao político ainda está, em Angola, a dar os primeiros passos. O actual presidente do MPLA e que, por inerência, é também presidente da República, para além de Titular do Poder Executivo, é um general (João Lourenço). É preciso tempo para que cada macaco regresse ao seu galho. O MPLA “promete” que os militares se subordinarão ao poder político quando o partido comemorar 100 anos no Poder. Só faltam 50…

Aliás, embora estejam muito calmos, os generais angolanos continuam a ter presente a sua velha tese herdada dos cubanos e russos: quem quer come, quem não quer morre.

Angola tem quase mais generais (entendidos figurativamente como sinónimo de militares) do que angolanos. Até agora a situação está controlada. Mas um dia destes é preciso quebrar essa velha escola de maus hábitos que é o ócio.

Portanto, os militares angolanos de vez em quando são “obrigados” a fazer uns exercícios num país vizinho. E, é claro, enquanto lá andam não porão em perigo a estabilidade política vigente.

Teria alguma razão se falasse dos militares sem patente. Era desses que eu queria falar. Não do general Kopelipa que, a título de exemplo, pagou um milhão de euros por duas quintas no Douro português para produzir e exportar vinho, ou do general Kundy Paihama “que semanalmente mandava um avião para às suas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para ele e filhos e outra para os seus cães”.

Kundy Paihama foi ministro da Defesa, figura de destaque do MPLA, e ministro dos antigos combatentes (do MPLA) um empresário de sucesso em áreas como a banca ao imobiliário, hotelaria, jogos, diamantes etc..

O sucesso de Kundy Paihama pode também ser aquilatado pelo seu gabarito intelectual e pela impunidade que sempre lhe foi dada. Se não foi dada foi comprada, vai dar ao mesmo.

Num dos seus (foram tantos) célebres discursos, Kundy Paihama disse: “Não percam tempo a escutar as mensagens de promessas de certos Políticos”, acrescentando: “Trabalhem para serem ricos”.

A maioria do povo angolano, 70%, que viviam (e vivem) abaixo da linha de pobreza entendeu a mensagem e passou a venerar Kundy Paihama.

Continuemos, apelando à memória para bem dos milhões que têm pouco ou nada e que, ao contrário dos generais que compram quintas em Portugal para produzir vinho, nem dinheiro têm para um copito, com as verdades de Kundy Paihama que, digo eu, deveriam fazer parte das enciclopédias políticas das universidades angolanas e, porque não?, de todo o mundo civilizado.

“Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”, afirmou o então ministro da Defesa do MPLA. Não, não há engano. Reflectindo a filosofia basilar do MPLA, Kundy Paihama disse exactamente isso: o que sobra não vai para os pobres, vai para os coitados dos cães.

A maioria do povo angolano, 70%, que vivia (e vive) abaixo da linha de pobreza entendeu a mensagem.

E por que não vai para os pobres?, perguntam os milhões, os tais 70%, que todos os dias passam fome. Não vai porque não há pobres em Angola. E se não há pobres, mas há cães…

“Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”. Explicou Kundy Paihama e, é claro, a maioria do povo angolano, 70%, que vive abaixo da linha de pobreza entendeu a mensagem.

É claro que, embora reconhecendo a legitimidade que os cães de Kundy Paihama têm para reivindicar uma boa alimentação, não posso deixar de dar um conselho aos milhões, os tais 70%, de angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.

Não. Não se transformem em cães para ter um prato de comida. Embora tenham regressado a um tempo semelhante, mas para pior, do peixe podre, fuba podre, 50 angolares e porrada se refilares, continuem a lutar para que os angolanos tenham direito a, pelo menos, comer como os cães de Kundy Paihama…

Quando morreu (24 de Julho de 2020), a vice-presidente do partido (Luísa Damião) disse que o MPLA perdeu “um intrépido militante defensor de causas nobres que sempre serviu a pátria com muita dedicação e determinação”.

“Angola perde um exímio nacionalista e político, que sempre desempenhou com zelo e abnegação e espírito patriótico as funções que lhe foram confiadas”, referiu Luísa Damião.

Por seu turno, o antigo secretário-geral do MPLA, general Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, considerou “o desaparecimento físico do camarada Kundi Paihama uma tristeza muito grande”.

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